HOMEM DEMOCRÁTICO - PÓLIS

Lucas Santos Correia

Platão observa que na democracia não há necessidade nenhuma de mandar, ainda que seja capaz de fazê-lo, nem de ser mandado, nem de combater quando os outros combatem, nem de estar em paz quando os outros estão, nem que se deixe de governar e de julgar se alguma lei impeça que se governe e julgue. Nela, pode-se condenar à morte ou ao exílio cidadãos sem que ninguém se preocupe com isso. A democracia é uma forma de governo aprazível, mas anárquico, reparte a igualdade entre o igual e o desigual.
A crítica de Platão à democracia parte do desequilíbrio entre desejo e necessidade. O conflito entre desejo e necessidades explica a passagem do homem oligárquico para o democrático e do democrático para o tirânico. Na vida democrática degenerada não há ordem e nem necessidade, tudo é vida livre. Por isso, Platão apresenta a democracia como origem da tirania, que, segundo ele, dentre as formas imperfeitas, é a mais deficiente e distante da polis ideal.
O único valor é a tolerância, pois, os cidadãos só podem estar de acordo com relação ao direito de discordar. Até a ideia de um governante, ideia superior, aos cidadãos é vista com certo desprezo. A alma democrática tende a ser igualitária, mas não sabe escolher entre os seus desejos, os necessários e os desnecessários.
Essa situação prepara as condições da gênese do homem tirânico: aquele que, nos primeiros dias e nos primeiros tempos, sorri e cumprimenta a todos que encontra, distribui terras para seu povo, simula afabilidade e doçura, porém, logo que consegue reconciliar-se com seus inimigos suscita guerras para que o povo tenha necessidade de um chefe. Depois, com as desavenças provocadas, especialmente em relação àqueles que alimentam pensamentos de liberdade, acaba predispondo os cidadãos a odiá-lo. Caracterizada uma situação de tirania, o tirano precisa eliminar os inimigos, se quiser governar.
Para Platão, a Tirania é consequência do excesso de liberdade que se dá ao povo.

"Ao fugir da fumaça da servidão sob um governo de homens livres, o povo acaba caindo, com a tirania, no fogo da servidão sob o despotismo de servos e, em troca daquela liberdade excessiva e inoportuna, é obrigado a vestir a túnica do escravo e a sujeitar-se a mais triste e amarga das servidões, a de ser servo dos servos" (Rep., VIII, 569 a-c, 2010).

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